Fantasia e realidade deliciosamente fundidas


Triste e real como a vida de Cecília. Woody Allen usa a natureza fantasiosa da protagonista para atacar o espectador que busca no cinema um escape para seus problemas. Viajamos, nos decepcionamos e fantasiamos junto com ela (não necessariamente nessa ordem). O roteiro e a direção fazem com que o filme gire em torno da protagonista e seu ponto de vista da absurda situação que é um personagem literalmente sair da tela do cinema e ir em direção a uma espectadora, lhe jurando amor eterno.
Cecília é frágil, insegura, e possui uma vida miserável. Sustenta com seu emprego de garçonete um marido vagabundo que a tem como propriedade, bate nela e a insulta, tudo isso durante o período da Depressão. Porém suas idas ao cinema, incansáveis vezes, mesmo que para ver o mesmo filme, ocupam seus pensamentos o suficiente para fazer de sua vida algo um pouco mais suportável. Submissa a seu patrão e seu marido, ela vai levando sua existência sem perspectivas, existindo no mundo real e vivendo somente quando está com os olhos fixos na tela do cinema, através da vida dos personagens fictícios. Numa intensidade menor ou até na mesma, muitos se encontram nessa situação, e A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985) é um alerta e um balde de água fria nessas pessoas acomodadas e sonhadoras ao extremo, ao mesmo tempo que é uma demonstração do quanto o cinema pode ser poderoso e influenciar em nossas atitudes no mundo real, positivamente. Isso é bem evidente quando Cecília finalmente enfrenta o marido e após o cumprimento de Tom Baxter pela atitude, ela diz que ele a inspirou. Com a ressalva de que o personagem não sairá da tela para nos impulsionar a mudar de postura e pensar na possibilidade de ser feliz, apesar disso podemos levar o personagem conosco em pensamento, como exemplo e inspiração nos momentos em que é preciso uma ajudinha extra.

Falando sobre a película em si, o grande forte dela são as sacadas que Woody Allen tem para retratar a diferença entre o mundo do cinema e o real com muito bom humor e inteligência. Só pra citar alguns exemplos: o personagem recém-saído do filme tentando pagar o restaurante com dinheiro de mentira, o fato dele nunca sangrar, transpirar ou despentear o cabelo, e quando Cecília entra no filme e percebe que as garrafas de champagne na verdade contém refrigerante, entre outros momentos muito divertidos.
O final, que obviamente não vou contar, pode levar o espectador a tristeza mas também a reflexão. Rosa Púrpura do Cairo me fez pensar e me deixou como mensagem final que o cinema pode ter um enorme poder transformador, que apesar de ser um mundo de mentira ele emociona, inspira, encanta, mas nossa vida pode ser igualmente satisfatória se nos tornarmos protagonistas dela ao invés de mergulharmos no conformismo. Espero que a maioria que assistiu tenha pensado nisso enquanto viam Fred Astaire e Ginger Rogers dançando nos últimos minutos. Mas o que com certeza eu sei que a cena final lembrou foi do motivo principal pelo qual vamos ao cinema: para sonhar. Afinal, quem já não teve vontade de entrar num filme, ou pelo menos viver alguma cena do seu filme favorito? Eu já tive meus momentos Cecília, confesso. É maravilhoso e muitas vezes necessário.

Trailer.

9 comentários:

KA disse...

É verdade pura: o cinema pode mesmo ser inspiração para nossa realidade.
Belo filme.
Boa sorte com o blog!
Abs

Hugo disse...

É um dos grandes filmes Allen, uma fantasia extremamente sensível.

Valeu pela visita ao blog, estou linkando seu endereço lá.

Bjos

Jenifer Torres disse...

Olá. Parabéns pelo blog e também estou te seguindo.
Beijos.

Alexandre disse...

A grande mensagem do filme é enxergar o cinema como uma inspiração e não como uma ilusão. Ótimo post.

gabriel disse...

Que ótimo texto, parabéns, estou te seguindo já.
Adoro Woody Allen, mesmo só tendo visto uns 3 filmes da vasta lista que ele tem. A Rosa Púrpura do Cairo já me foi indicado muitas vezes por uns amigos e outros blogs, acho que é o próximo filme que vou conferir. Pra ser sincero, preciso conferir esse balde de água fria.
Abraços.

Cristiano Contreiras disse...

Este é um dos trabalhos mais sensíveis e também primorosos de Woody Allen. Mas, eu prefiro ele atualmente, talvez por gostar das abordagens mais sexuais que ele imprimiu em filmes como "Vicky Cristina Barcelona" ou "Match Point".

parabéns pelo blog, te sigo e linkei no meu! abs

Alan Raspante disse...

Adoro Woody Allen, porém, ainda não vi o filme citado. Mas, o seu texto me deixou absolutamente mais curioso ainda. Falando nisso, ótimo texto e blog. Parabéns :)

Seguindo e linkando!

Luiz Santiago disse...

Olá! Que bom ler sobre um filme do Woody Allen. Ele é meu diretor preferido, e eu tenho o orgulho de já ter visto e lido tudo o que ele produziu. Este mês de janeiro ele é o "Diretor do Mês" aqui no CINEBULIÇÃO. =)

Sim, sim, aceito a parceria, já estou te seguindo e já linkei o blog. Vida longa ao bebê Moviewalk!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um dos grandes momentos de Allen. O filme retrata momentos da vida de qualquer cinéfilo. E a Mia Farrow, essa injustiçada, está extraordinária.
Parabéns pelo blog!
Abraços

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

 
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